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MACROECONOMIA

4% de crescimento do PIB em 2013?

Há muita gente apegada à previsão de que o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro crescerá 4,00000% em 2013. Coloquei vírgula e esses zeros porque previsões como esta tem a ilusão de querer acertar na mosca. Mesmo que o resultado final começasse com 4, depois da vírgula seria possível acrescentar um número infinito de algarismos, zeros ou não, o mesmo valendo para qualquer outro número relativo a essa taxa.  Assim, acertar na mosca é praticamente impossível, o que retira de tal previsão um caráter científico, pois não terá chances efetivas de se ver correta.

Por isso mesmo, a análise estatística recomenda que previsões desse tipo sejam feitas por intervalos. Por exemplo, um número entre 3,8 e 4,2%. Mas, do lado da demanda de previsões, como a dos jornais, insiste-se sempre num único valor, e o próprio mercado financeiro também segue essa linha. A seguir examinarei o que sustenta tal previsão para o PIB de 2013, pois nisso há fragilidades que revelam outros motivos pelos quais ela e outras de números precisos não devem ser levadas muito a sério.

            No âmbito governamental, vi previsão de que o PIB de 2012 deve apresentar crescimento perto de 1,6%,  com a agropecuária recuando  1,4%, a indústria caindo 0,1% e os serviços crescendo 2,2%. A estimativa de 4% para o aumento do PIB de 2013 se apóia em números como 4,6% para a agricultura, e de 3% para a indústria e os serviços 3%.

 Quanto à agricultura, espera-se que seu desempenho seja bem melhor, pois em 2012 sofreu seca que prejudicou a produção na região Sul.  E, nesta época em que começa o plantio das maiores culturas, há o estimulo de preços bem favoráveis, como os da soja e do milho, cujas safras recentes nos EUA foram muito afetadas por uma seca também naquele país.

Ainda quanto a secas, ontem me assustei com a manchete do Caderno de Economia deste jornal: “Com o outubro mais seco em 83 anos, reservatórios do Nordeste estão no limite”.  A matéria também diz que os do sistema Sudeste/Centro-Oeste tiveram fortes perdas no mesmo mês, e sei de agricultores que já atrasaram o plantio no Centro-Oeste. Essa situação foi atribuída, particularmente no Nordeste, ao El Niño, um fenômeno atmosférico-oceânico marcado por um aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico tropical, e que repercute noutras regiões, inclusive no Brasil. Felizmente, a mesma matéria diz que o fenômeno está perdendo força. E consultando fontes especializadas em previsões do tempo, vi que se espera de novembro em diante uma precipitação normal das áreas que respondem pela maior parte da produção de grãos.   

É na indústria que o quadro se revela muito sério. Há tempos próxima da estagnação, para levá-la à recuperação o governo conta com outra safra, que já deveria ter começado no terceiro trimestre deste ano, mas há sinais de que essa esperança agora ficou para o quarto. Refiro-me ao resultado de vários estímulos dados ao setor e a seus consumidores, como o crédito a menores taxas de juros  –  que também estimula a economia como um todo –, e outros específicos, como a desoneração de encargos sociais sobre a folha de salários de alguns ramos industriais e a redução do IPI de veículos e da chamada “linha branca” de eletrodomésticos.

Inegavelmente, há aí o estímulo de impostos menores, mas há reações dos consumidores que não foram convenientemente ponderadas pelos radares, governamentais ou não. Uma delas, para a qual eu também não havia atinado, e da qual soube por empresários do comércio varejista, é que, por exemplo, quando as pessoas compram mais automóveis elas tendem a reduzir a aquisição de bens de outros ramos industriais, o que reduz o impacto das medidas tomadas. E permanece também o problema do maior endividamento dos consumidores, que inibe em parte a opção por dívidas adicionais.

A demanda também pode fluir para mais produtos importados, e há também outro fator imponderável. A venda de produtos industriais tende a crescer sazonalmente no fim do ano, com as festas natalinas. O resultado dependerá da reação dos consumidores. Se ocorrer de tal forma que no final de dezembro se verifique uma frustração de vendas, com estoques imprevistos, isto irá prejudicar a indústria em 2013, pois já começaria o ano sem a necessidade de repor prateleiras esgotadas ou abaixo do normal.

Quanto ao setor de serviços, ele vem crescendo persistentemente, uma das razões sendo que grande parte desse setor não sofre concorrência do exterior, pois não há como importar serviços que vão dos de cabeleireiros aos prestados pela administração publica e pelo comércio varejista. Uma das exceções é o turismo, onde é forte a concorrência externa. De qualquer forma, o setor presta muitos serviços à agricultura e à indústria, e se beneficia também da renda que ambos geram para seus empresários e trabalhadores.

            Um aspecto interessante do relatório Focus do Banco Central, que toda semana levanta as previsões do mercado financeiro, é que por muitas semanas recentes ele mostrou uma contínua queda da previsão de crescimento do PIB em 2012, mas manteve sua previsão de 4% em 2013. A sensação é que quem responde à pesquisa trabalha com horizontes muito curtos, e se ancora num número para o ano que vem à frente, sobre o qual irão refletir melhor apenas na virada do ano.

            Por essas e outras razões, entre elas as incertezas que ainda mantêm nebuloso o quadro da economia mundial, desconfio da previsão dominante quanto ao PIB de 2013 e principalmente no caso da indústria. Mas, para não se dizer que eu mesmo não me arrisco nesse jogo, diante desse quadro e mesmo sem recorrer a um arsenal econométrico, entendo mais provável uma taxa entre 3 e 3,5%. E não os 4% que muitos estão apregoando, ou até mais como o ministro Mantega. Mas, torço para que estejam certos.

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Roberto Macedo, é economista (UFMG, USP e Harvard), consultor econômico e de ensino superior, e professor associado à Faap.