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POLÍTICA INDUSTRIAL

A próxima onda

A demanda por motocicletas, celulares, eletrodomésticos, entre outros bens de consumo, gerada pelo aumento da renda da população brasileira de classes D e E, como reflexo das políticas de combate à pobreza que vêm sendo introduzidas no Brasil desde o início dos anos 1990, atenuou o impacto da crise sobre a nossa economia. Entretanto, é necessário aprofundar a reflexão sobre o significado do aumento do poder de compra desse grupo, fenômeno que está acontecendo em escala global. Ele tem decorrido de processos de urbanização e de políticas de renda similares às nossas e que vêm sendo aplicadas em países populosos, como  Índia, China e México, relação esta que pode crescer, na medida em que outros países têm buscado aderir às metas de redução da pobreza definidas desde 2000, pela Declaração do Milênio (ONU) .

A população mundial está estimada em 6,8 bilhões de pessoas, de acordo com o U.S. Census Bureau. Dessas, segundo estimativas do Banco Mundial, 79,7% (ou 95% da população dos países em desenvolvimento) vivem com menos que US$ 10 por dia.  Ou seja,  5,4 bilhões de pessoas  vive com US$ 300,00 - o equivalente a R$ 510,00 - mensais ou menos.

O  Banco Mundial tem periodicamente revisto suas estatísticas que tratam de medidas de pobreza, devido ao aumento do custo de vida na maior parte dos países em desenvolvimento, destacando-se entre eles os com alimentação, energia e habitação para a maior parte dos países, e de acesso à água potável para alguns países, como o México.

De 2000 a 2010, 227 milhões de habitantes de países em desenvolvimento deixaram de viver em favelas. Apesar das conquistas, 828 milhões de pessoas, ou 32% da população urbana desses países,  ainda vivem nessas aglomerações urbanas, segundo dados da “State of the World’s Cities 2010/2011  UNHabitat.

A Índia, onde 367 milhões de pessoas vivem em favelas e a migração para cidades continuará, abriu um enorme mercado para busca de soluções para a habitação de baixa renda e de  gerenciamento de processos na área de saneamento básico.  O governo daquele país  investirá US$ 100 bilhões até 2015 em infra estrutura urbana para o gerenciamento de água e resíduos sólidos.

A política industrial chinesa também busca soluções para reduzir a pressão sobre a necessidade de moradia decorrente da urbanização e visando reduzir o  consumo de água.

A crise levou ao fortalecimento do papel dos governos e ao ressurgimento do interesse dos países desenvolvidos em formular políticas industriais.  Mas provavelmente, o primeiro mundo continuará a buscar o mercado dos 20% dos habitantes do planeta que vive com mais que US $ 300 mensais, onde reside maior poder de compra.  

O Brasil tem 192 milhões de habitantes, dos quais 161 milhões de pessoas (84% de sua população) vivem em áreas urbanas, em 50 milhões de domicílios permanentes urbanos. Desses, 23,6 milhões, ou seja, quase a metade é habitada por pessoas que recebem até um salário mínimo, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2009, do IBGE. O Censo de 2000 ainda apontava para a cifra de  12 milhões de pessoas vivendo em favelas no Brasil. Segundo estimativas da ONU, em 2010, entre os habitantes de áreas urbanas no Brasil, aproximadamente 26,4%  ou 42,5 milhões de pessoas vivem hoje em favelas (estimativas da “State of the World’s Cities 2010/2011/UNHabitat). O Censo 2010 nos trará dados mais atuais sobre o tema.

As despesas com habitação consomem 39% da renda das famílias que vivem em áreas urbanas e recebem até R$ 830. Em seguida, vem a alimentação, que consome 26%, transporte, com 8,8%, e saúde, que responde por 5,5% das despesas.(PNAD/IBGE)

A experiência brasileira pós-crise mostrou que qualquer aumento da renda no contingente mais pobre surte um enorme efeito anticíclico. Assim, medidas que objetivem reduzir as despesas dessas famílias provavelmente surtirão o mesmo efeito.

Hoje, vários países com grandes populações passam por processos de urbanização muito fortes, o que tem fortalecido, num primeiro momento, apenas a demanda por bens de salário, de produção da indústria extrativa, da transformação primária e siderurgia. Mas, numa próxima  onda, o processo irá fortalecer a demanda por soluções que aumentem a renda disponível dos mais pobres.

Destaco a necessidade de, no âmbito da política industrial  do próximo governo,  desenvolver produtos e soluções - preferivelmente sustentáveis - direcionados para atender ao enorme contingente de novos consumidores, tendo como público alvo as classe D e E, tanto no Brasil como em outros países  em desenvolvimento.

O estímulo às inovações poderá ocorrer  por meio de políticas de compras governamentais, financiamento da FINEP- Financiadora de Estudos e Projetos, direcionamento das disciplinas nas universidades e das pesquisas para o desenvolvimento, por exemplo, de sistemas modulares de construção civil, soluções físicas e químicas de baixo custo para o saneamento em áreas onde o sistema público não é acessível, soluções sustentáveis na captação, uso e re-uso de água, como: filtros, válvulas e bombas de uso doméstico, entre tantos outros produtos.

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[1] Projeto de Lei da Câmara Nº 2661, de 1992, (PLS 80/91), que pretendia instituir o Programa de Garantia de Renda Mínima. Benefício de Prestação Continuada (1993), o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (1996), e o Programa Comunidade Solidária (1995), Bolsa-Escola (2001), Bolsa-Alimentação (2001), Auxílio-Gás (2002), Cartão Alimentação (2003) e o Bolsa-Família (2003).

[2] Em 2000 foi lançado pela ONU, a Declaração do Milênio. - plano de ação global, com oito objetivos, monitorado por 48 indicadores, a serem alcançados até 2015. Dentre esses objetivos destaca-se a erradicação da extrema pobreza e a fome em escala mundial. (ONU, 2010).

[3] Ver  Martin Ravallion, Shaohua Chen and Prem Sangraula, Dollar a day revisited, World Bank, May 2008

(Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, página B2 , Opinião/ Economia, em 25 de outubro de 2010.)

 Patricia Marrone, Economista (USP) , coordena o departamento de economia de entidades de classe patronais e é sócia da consultoria Websetorial.