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POLÍTICA REGIONAL

A definição de políticas setoriais para Arranjos Produtivos Locais (APLs)

Nos dias de hoje, as empresas têm o objetivo econômico e social de se tornarem mais competitivas e fundamentadas em conhecimento, para serem mais lucrativas e também capazes de contribuir para o crescimento sustentável da economia, oferecendo empregos melhores e ainda contribuindo para uma maior coesão social.


Observa-se que o alcance desse objetivo mais amplo, mais explicitado pelas grandes empresas, também depende muito do sucesso das de pequeno e médio porte, em face do importante papel que desempenham na economia. E, ainda, que também, as empresas reunidas e organizadas regionalmente possuem um desempenho melhor do que a média nacional nos setores em que atuam. Por essa razão a organização de arranjos produtivos locais vem se tornando crescentemente reconhecida como valiosa ferramenta para estimular o desenvolvimento econômico.

Entretanto, há a necessidade de definir mais precisamente o que de fato configura um arranjo produtivo local e os fatores a ele relacionados, para em seguida analisar cada região e desenhar políticas especificas voltadas para arranjos desse tipo. Para estimulá-los, as políticas devem facilitar a cooperação formal e informal entre empresas, voltada para ampliar sua eficiência e fortalecer seus vínculos com as instituições capazes de ajudar na agregação de valor por meio do conhecimento científico e tecnológico.

Assim, o primeiro passo no desenho e implementação de políticas para arranjos produtivos locais é mapeamento deles. E, uma vez identificados, tais devem ser analisados quanto às suas forças e vulnerabilidades. Por sua vez, as políticas governamentais devem oferecer suporte para algumas empresas se concentrarem territorialmente, e também para promover mudanças estruturais por meio do aprimoramento da capacidade de inovação naquela região. Essas empresas devem ainda estar inseridas no contexto geral da globalização, e dessa forma crescentemente envolvidas no contexto supra-nacional de formação de redes de produção. Quanto à regionalização, o arranjo deve fortalecer os vínculos entre os ofertantes de recursos e os demais colaboradores no território, visando assim fortalecer a competitividade setorial local.

Portanto, as políticas não devem ser excessivamente focadas na região ao tentar estimular a colaboração, organização e a mobilização dos recursos regionais. Devem também encorajar o fornecimento de insumos globais e atrair empresas para o arranjo, de maneira a torná-lo mais competitivo.


As lideranças locais possuem um papel importante na concepção e implementação dessas políticas, já que devem intermediar o relacionamento entre as empresas e as demais instituições públicas e privadas, locais ou não.

As políticas de apoio à agregação produtiva local devem ser desenhadas de acordo com as circunstancias presentes em cada região e com o arranjo setorial identificado para ação.

Diferentes ferramentas podem ser adotadas para implementar as referidas políticas, tais como:

" políticas gerais de promoção do desenvolvimento econômico e da mudança estrutural na região e setor;
" políticas para o aumento da cooperação e formação de redes de empresas;
" construção ou fortalecimento de organizações para a transferência de tecnologia, de acordo com as necessidades das empresas e visando ao aprofundamento dos seus vínculos com a infraestrutura tecnológica local;
" ênfase no papel de organizações públicas e ONGs como mediadores da formação de redes de empresas e para implementação de projetos conjuntos;
" aprimoramento da capacidade de inovação das empresas e de conhecimento administrativo para acelerar o processo interativo de aprendizado entre as empresas e relativamente ao seu ambiente;
" estímulo à especialização e ao conhecimento especializado;
" acúmulo de número suficiente de empresas e organizações localizadas regionalmente para garantir a eficiência do conjunto delas.

O objetivo, em última instância, é o de transformar gradualmente os arranjos produtivos locais em sistemas regionais de inovação. Para tanto, os paises que implementaram tal esforço com sucesso verificaram a necessidade da ação pró-ativa de consultorias e da nomeação de um parceiro intermediário que assuma um papel de supervisão, capaz de encorajar a colaboração entre as empresas.

Para o desenvolvimento bem sucedido dos arranjos, verificou-se ainda a importância da existência de organizações locais e regionais de conhecimento e treinamento. Tais instituições são responsáveis pelos aprimoramentos tecnológicos que ocorrem nas regiões, e realizam seu trabalho por meio de um estreito contato com as empresas para conhecer os seus problemas.

Salienta-se finalmente, a importância do envolvimento da industria local no desenho e na implementação das referidas políticas, pois a idéia de um arranjo produtivo exige necessariamente a cooperação entre empresas e destas com as autoridades que conduzem a formação de políticas.

Adam Smith, um dos precursores da moderna análise econômica, enfatizou demasiadamente o papel do interesse egoístico dos atores econômicos no sentido de alcançar um melhor resultado para o conjunto, com esse papel funcionando como a mão invisível que assegura eficiência e competitividade. Na visão moderna, entretanto, estimulado pela globalização o papel dessa mão invisível vem freqüentemente cedendo lugar à cooperação, como nos blocos econômicos e nos acordos entre blocos. Um arranjo produtivo local é um desenvolvimento na mesma linha e por isso mesmo precisa ser bem assentado na cooperação dos vários atores nele envolvidos, sem o que não serão alcançadas a eficiência produtiva e a competitividade do arranjo como um todo.


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*Patrícia Marrone, Economista e mestre em economia pela Universidade de São paulo (USP), é sócia-diretora da Websetorial e da Consultrend, onde assessora entidades de classe patronais desde 1986. Foi Secretária do Conselho de Desenvolvimento Econômico da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo.

** Roberto Macedo, Economista (USP), com Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é sócio-diretor da Websetorial, pesquisador da FIPE-USP e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foi presidente da Eletros-Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos e do Sindigás-Sindicato das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. . Uma versão menor e mais específica deste artigo foi publicada no jornal O Estado de S.Paulo em 9/9/04, sob o título de A FIESP e a política econômica.