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COMPETITIVIDADE

Indústria, a complexa arte de competir

A produtividade mede a habilidade de converter insumos em produtos. Ela  depende da tecnologia adotada, do empenho dos trabalhadores, da habilidade do empreendedor em gerir seu negócio e também do ambiente em que a empresa se insere.

Diferenciais de produtividade entre países podem ser explicados pela dotações de capital humano e de infraestrutura. De acordo com os dados do The Conference Board Total Economy DatabaseTM , a produtividade do trabalho no Brasil, que mede o quanto foi produzido por unidade de trabalho empregada, a partir do coeficiente entre o PIB e o número total de empregados na nossa economia, chegou a US$ 19,7 mil por trabalhador, em 2001. Na Alemanha, foi US$ 78 mil, nos Estados Unidos, US$ 105 mil, na China, US$ 16,7 mil, e na Índia, US$ 9,6 mil1.  A taxa de crescimento da produtividade no Brasil também é pequena. Entre 2005 e 2011, foi de 2,2% ao ano (a.a.) em média, enquanto nas economias emergentes a média foi de 5,6% a.a., sendo que as campeãs foram a Índia, com 7% a.a., e a China, com 13,6% a.a.

Diferenciais de produtividade entre municípios de um país são igualmente importantes. Estudiosos 3 mostraram que a desigualdade da produtividade dentro de um mesmo país é, em geral, muito superior aos diferenciais entre países e exerce fortes impactos sobre a eficiência da produção nacional. Daí a importância das instituições locais, que ajudam a decidir quanto ao fornecimento de educação e de infraestrutura. Além disso, onde a densidade populacional é maior, a produtividade aumenta em 6%, em média. E ela cai com a distância dos municípios em relação às rodovias pavimentadas. Para cada 1% de aumento da distância média de uma cidade de rodovias pavimentadas, reduz-se a renda do trabalho de homens entre 18 e 55 anos em 0,06% no Brasil e 0,09% no México.

Entretanto, os mais importantes diferenciais de produtividade são os observados entre os setores. A produtividade global da economia depende não só do que está acontecendo dentro das empresas, mas também da alocação dos recursos entre os setores. O fluxo do emprego das atividades de baixa para as de alta produtividade determinam o desenvolvimento econômico e levam à chamada "mudança estrutural positiva" da economia.

Em 2009, a valores desse ano, um trabalhador do setor agropecuário brasileiro gerou em média R$ 8,8 mil de produção, enquanto na indústria esse número foi de R$ 34 mil, R$ 20 mil no comércio, R$ 18 mil na construção civil, e R$ 24 mil no setor de serviços. Mas, de 2000 até 2009, de cada cinco empregados que saíram do setor agropecuário, apenas um foi para a indústria. Os demais foram para o comércio ou serviços, onde a produtividade não é tão elevada como na indústria. Isso explica, em parte, os resultados pífios alcançados pelo Brasil na última década em termos de produtividade, em relação aos países da Ásia, onde empregados do setor rural migraram majoritariamente para a indústria.

A competição de produtos importados e a taxa de câmbio valorizada têm forçado a nossa indústria a se tornar mais eficiente, racionalizando a sua operação. Mas essas pressões têm sido excessivamente fortes e ela não tem conseguido absorver trabalhadores, que acabaram migrando para outros setores onde a produtividade do trabalho é menor.

Para reverter esse quadro, seriam necessárias urgentes melhorias no ambiente de negócios como a simplificação do sistema tributário, e a flexibilização do mercado de trabalho, além de um ataque aos nossos juros. A ampliação da infraestrutura de transportes também contribuiria muito para reduzir os diferenciais de produtividade intra-regionais. Os economistas estão cansados de pregar esses caminhos, mas as melhorias têm sido insuficientes em muito lentas.

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(Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, página B2, Opinião/Economia, em 1 de março de 2012.)

Patrícia Marrone, Economista (USP), coordena o Depto. de Economia de entidades de classe patronais e é sócia da consultoria Websetorial.

1 Valores ajustados pelas paridades de poder de compra dos países (Penn World Table).

Acemoglu, Daron e Dell, Melissa; "Productivity Differences Between and Within Countries", National Bureau of Economic Research, W15155