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REPRESENTAÇÃO POLÍTICA

Inflação e Grupos de Poder

Os brasileiros sabem como é difícil conviver com a inflação, e no momento vêem a sua condição financeira se deteriorar num ambiente de preços crescentes. Por isso, já se perceber uma preocupação com o acirramento desse processo.  Como economista, sinto que cada vez mais me perguntam se a inflação alta vai voltar.

O diagnóstico comum é que o problema decorre da demanda aquecida. Para arrefecê-la, os instrumentos usados são conhecidos. Com o objetivo de desestimular a expansão do crédito e o consumo, o governo tem lançado mão das chamadas medidas macroprudenciais, além do aumento da taxa de juros, ou Selic. Diz que também está empenhado em cortar gastos, mas será preciso ver para crer.

A essas medias somam-se os controles de preços administrados como: a gasolina, o álcool e a energia elétrica residencial. Ferramentas desse tipo são de fácil aplicação. Decididas em poucas reuniões de gabinete.

Só que, no lado da oferta, outros fatores têm contribuído cada vez mais para pressionar os custos de produção, que são repassados para os preços finais. Os mais evidentes são as conhecidas oscilações nos preços de commodities, que há tempos revelam uma tendência de aumento. Ademais, pouca atenção tem-se dado àqueles componentes inflacionários que decorrem do fortalecimento de alguns núcleos de poder econômico concentrado.

No setor privado, os grupos de poder que mais têm se fortalecido, e buscado ampliar a sua “fatia do bolo”, são os que decorrem da concentração crescente na indústria nacional fabricante de insumos básicos, imprescindíveis para a indústria de transformação. Seguindo tendência mundial, as inúmeras fusões e aquisições em vários desses setores, reduziram muito a rivalidade entre os atores do mercado, elevando a possibilidade do exercício do seu poder de fixação de preços. Por exemplo, na indústria siderúrgica os mercados de vergalhões e de produtos laminados são dominados por pouquíssimos grupos empresariais que controlam todo o mercado. O mesmo ocorre com a indústria do papel em alguns nichos.

Para agravar, os produtos desses setores são consumidos pela indústria intermediária (como a indústria metalúrgica, a de embalagens etc.), bastante pulverizada em pequenas e médias empresas, que os compram em quantidades insuficientes para ampliar o seu poder de barganha - o que também dificulta a aquisição  de similares importados. Com isso, a indústria intermediária tem que aceitar passivamente os reajustes nos preços dos produtos da indústria básica local.

Outros grupos de poder do setor privado que se fortaleceram muito nos últimos dez anos, e cujas pressões sobre os custos são relevantes, são os sindicatos dos trabalhadores, principalmente da indústria. As crescentes pressões exercidas nas negociações coletivas têm resultado em aumentos forçados de salários e de cláusulas sociais, superiores aos níveis que a indústria é capaz de compensar com ganhos de produtividade, em particular nas pequenas e médias empresas.

Todos esses custos, ao não poderem ser totalmente absorvidos, acabam sendo total ou parcialmente repassados ao restante da economia, sob a forma de reajustes de preços, ou transformam-se em demissões e novas contratações, ampliando a rotatividade da mão-de- obra e os custos de qualificação. Tanto as elevações nos custos dos insumos básicos e como as remunerações do fator trabalho têm contribuído para a alta nos preços dos produtos industrializados e junto com câmbio, para a perda da competitividade da indústria brasileira nos últimos anos.

Também do lado do setor público federal, e nos três poderes, nos últimos anos foram fortes as pressões por aumentos salariais para os servidores públicos, outro ônus repassado para a sociedade, frequentemente sob a forma de mais impostos ou impedindo que estes sejam reduzidos. Indispensáveis investimentos públicos, como em infraestrutura, são também prejudicados.

Infelizmente, os instrumentos disponíveis para reduzir as pressões de tantos grupos de poder sobre os preços da economia não são de fácil manuseio, pois aqui pertencem à esfera política.

No lado da formação dos oligopólios, os instrumentos de regulação desenvolvidos têm sido aplicados pela SEAE/CADE. Mas, é quase impossível coibir um processo de concentração que ocorre em escala mundial.  Quanto às pressões dos grupos de trabalhadores, a promoção da reforma sindical, para amenizar a ação da chamada indústria de sindicatos de trabalhadores – é assunto espinhoso.  Pior ainda,  conter a alta de salários no setor público  é algo considerado politicamente incorreto, principalmente para o partido do governo.

Por isso, é mais fácil continuar elevando a taxa de juros e apertando o crédito do que tentar arrefecer as pressões dos grupos de poder que se impõem na luta por maiores ganhos, já que a intervenção sobre os mesmos é tida como muito difícil institucionalmente ou impalatável por razões políticas. Os perdedores, entretanto, são conhecidos: o consumidor, os contribuintes e a economia do país.

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( Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, página B2 , Opinião/Economia, em 20 de maio de 2011.)

Patricia Marrone é Economista e mestre em Economia pela Universidade de São Paulo. Coordena o Departamento de Economia de entidades de classe  patronais, sendo sócia da consultoria Websetorial.