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REPRESENTAÇÃO POLÍTICA

As entidades de classe empresariais e a política econômica

Entre os objetivos mais importantes das entidades de classe empresariais sempre estiveram os de defender perante o governo federal os interesses dos setores que representam, bem como o de influenciar a política econômica que ele segue, nos aspectos setoriais, regionais e macroeconômicos. Antigos e novos dirigentes dessas entidades sempre alardeiam esses propósitos, mas hoje encontrarão um quadro em que o trabalho dessas entidades perdeu eficácia por várias razões que o tornaram muito mais complexo e desafiante, exigindo assim novas maneiras de agir.


Do lado do governo, foi-se o tempo em que a política econômica era ditada pelo ministro-czar responsável pela área, escudado por governos autoritários. Hoje não há um czar, pois o Ministério da Fazenda, mesmo liderando a chamada equipe econômica, divide responsabilidades com outros ministérios e órgãos, como o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o de Planejamento, Orçamento e Gestão, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco Central(BC). Mesmo sem serem formalmente autônomos, os dois últimos costumam praticar a autonomia , ou mesmo atuar à revelia do governo.

Noutros ministérios outrora também mais ligados à área econômica, como os da Energia e Telecomunicações, seu próprio poder se diluiu com agências reguladoras que atuam nessas áreas. Até o Ministério da Saúde tem parte da política econômica, ao dispor sobre preços de remédios e de planos de saúde, fazendo-o também com uma autonomia que anteriormente não tinha em relação ao da Fazenda.

Além de levar às agências reguladoras, o amplo programa de privatização desenvolvido na década passada significou para o governo um espaço mais restrito de atuação e um menor número de instrumentos de política econômica, na medida em que, enquanto estatais, várias empresas eram utilizadas dessa forma, principalmente em questões de abastecimento e preços.

Particularmente importante também é hoje a influência do Congresso sobre a política econômica, ampliada acentuadamente depois da redemocratização. Além de sua atuação no processo legislativo em curso, com a Constituição de 1988 o Congresso impôs limitações à liberdade de o Executivo definir e executar sua política econômica.

Como resultado de tudo isso, atuar em Brasília defendendo este ou aquele pleito setorial é algo muito mais complexo do que no passado, quando o presidente de uma entidade de classe empresarial e/ou seus associados resolviam suas questões setoriais, regionais e macroeconômicas com o czar econômico de plantão. Hoje, para ter maiores chances de eficácia, a atuação exige recursos materiais e humanos muito mais amplos e um embasamento técnico muito mais sofisticado.

Do lado dessas entidades e dos empresários, muita coisa também mudou. Desapareceram do cenário vários "capitães da indústria" e outros líderes empresariais que tocavam empresas familiares, seja porque venderam suas empresas, ou porque no processo sucessório sua autoridade se diluiu entre herdeiros e/ou executivos profissionais. Como a desnacionalização afetou muitas empresas, e estas são tocadas por executivos deste último tipo, na gestão empresarial cresceu a importância deles a serviço de acionistas, em contraste com a de empresários administrando empresas à sua maneira.

Com suas cabeças permanentemente sob risco de corte, esses executivos têm maior interesse em conhecer as regras do jogo em que interesses empresariais possam ser normalmente defendidos, do que ficar na dependência de contatos e ações pessoais de maior risco, principalmente quando desenvolvidas por terceiros. Essa transição do empresário para o executivo, ainda em desenvolvimento, tem implicações ainda não bem compreendidas e assimiladas pelas entidades de classe empresariais brasileiras.

Outra complicação é que a indústria paulista, que se destaca na liderança do setor e das empresas em geral, perdeu importância no cenário industrial nacional, pois nas últimas duas décadas a atividade cresceu mais em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e Santa Catarina. Essa mudança ocorre num processo em que a economia como um todo também passou por mudanças estruturais. Hoje, além de menos estatizada, é muito mais aberta ao exterior, o protecionismo à industria nacional é menos presente, e muito mais forte a necessidade de eficiência produtiva.

Nada disso impede que as entidades empresariais avancem com suas iniciativas, mas cresce a importância de estarem mais preparadas para enfrentar a nova realidade, olhando para dentro, para fora e para os lados antes de ir em frente.

Num dos lados mais importantes, há que enfrentar a fortíssima influência do setor financeiro sobre a política econômica. Essa influência cresceu muito depois que a inflação foi controlada com o Plano Real, e se acentuou também com as fusões e aquisições de instituições financeiras, com o forte crescimento da dívida pública e com a adoção do regime de metas inflacionárias, a qual acentuou o papel da política de juros. Enquanto o lado real da economia, em particular a indústria, sofria crises e ajustamentos, os bancos lucravam e continuam lucrando como credores e corretores da dívida pública, além de aprimorarem sua eficiência com o investimento de lucros. Isso, além de escapar ao escrutínio de seu poder de mercado, tal como ocorre nos demais setores pelas ações governamentais de defesa da concorrência. Nesse processo, a política econômica, em particular a de juros, acabou capturada pelos interesses do chamado mercado, o financeiro.

Atuar no sentido de libertá-la desse aprisionamento deve ser um dos focos mais importantes das entidades de classe, pois sem isso os interesses do lado real da economia, continuarão em segundo plano. As entidades empresariais não poderão avançar nessa linha sem aprender com os próprios bancos, que se aparelharam com fortes departamentos econômicos liderados por competentes economistas, que fornecem aos bancos, aos seus clientes, ao governo e à mídia uma profusão de informações. Num processo em cadeia, isso os credencia a opinar sobre medidas governamentais, dominando as repercussões que delas faz o noticiário econômico. Assim, quem formula a política econômica, em particular o BC, acaba muito influenciado pela opinião do mercado financeiro, em geral favorável à política de juros elevados.

As entidades empresariais do lado real da economia ficaram para trás nessa guerra de informações e de opiniões onde os interesses financeiros influenciam fortemente a política econômica, freqüentemente de modo decisivo, em particular a ligada aos juros e à indexação de ativos financeiros.

As empresas investem em busca de resultados. Para obtê-los os dirigentes de entidades de classe da indústria, do comércio e dos serviços não financeiros precisarão investir pesadamente em recursos materiais e humanos. Ou seja, é necessário buscar competências condizentes com um país mais democrático, com novos e mais atores em cena, mais aberto na sua economia, e onde um setor, o financeiro, é muito eficaz na defesa de interesses conflitantes com os do lado real da economia.
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* Roberto Macedo, Economista (USP), com Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é sócio-diretor da Websetorial, pesquisador da FIPE-USP e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foi presidente da Eletros-Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos e do Sindigás-Sindicato das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. . Uma versão menor e mais específica deste artigo foi publicada no jornal O Estado de S.Paulo em 9/9/04, sob o título de " A  FIESP e a política econômica" .